Por que esses vilões parecem gays?
- Pietra Ramos

- 12 de fev. de 2023
- 3 min de leitura
Reacionarismo na Disney em seu chamado Renascimento
Esses dias eu estava assistindo um vídeo sobre representatividade gay em HQs e esse tema me veio à mente. Se você prestar atenção, em muitos filmes da Disney os vilões apresentam características que, conscientemente ou não, associamos a pessoas da comunidade LGBTQIA+.

É claro que você se lembra da icônica personagem Úrsula de A Pequena Sereia (1989), que foi abertamente inspirada na drag queen estadunidense Divine. Mas também tem o Scar (1994), o Jafar (1992), o Ratcliffe de Pocahontas (1995)… Bom, se você pensar nos filmes da sua infância vai identificar outros exemplos. Nesse sentido, todos esses personagens possuem uma característica em comum (além de serem os vilões, claro), eles são “codificados queers”, ou seja, apresentam trejeitos e traços físicos comumente associados à comunidade queer, sem explicitamente declarar isso. Eu, particularmente, acho que a Disney enquanto uma empresa formadora da nossa subjetividade, no centro do capitalismo, não faria isso por acaso.
O Renascimento da Disney
Bom, vamos começar falando um pouco sobre a Disney na época da produção desses filmes. O Renascimento da Disney, ou sua chamada “década de ouro”, se deu entre 1989 e 1999. Os anos 80 não foram muito bons para a empresa, pois Walt Disney já havia morrido há mais de 10 anos e as produções eram fracassos de bilheteria. Assim, Roy E. Disney teve que trazer os melhores da Paramout para reinventar a marca e evitar a falência, o que a gente pode dizer que deu certo, né, já que os sucessos que marcaram a infância de muitas pessoas foram lançados naquela época. Em geral, os filmes seguiam as fórmulas dos contos de fadas com romances héteros e finais felizes.
Atualmente, a Disney tem se “atualizado”, apresentando aos poucos mulheres emancipadas, personagens latinos não estereotipados e até personagens gays (que são sim os “bonzinhos"), como em Mundo Estranho (2022). Porém, não vamos nos enganar, eles fazem o que atrai público, só que isso é tema para outro texto.
Contexto Histórico
O contexto histórico também diz muito sobre a configuração da Disney (e de toda a sociedade) naquele período. A década de 80 foi marcada por uma epidemia de AIDS que, em uma sociedade extremamente homofóbica, foi munição para um discurso preconceituoso baseado em falácias e o “puro suco” do reacionarismo.
Em uma campanha de prevenção da doença em Oregon (EUA), por exemplo, a promiscuidade - ah, e promiscuidade para eles era se relacionar com alguém do mesmo sexo - é apontada como a causa final da AIDS. Também não podemos esquecer do horrendo governo Thatcher (1979-1990) no Reino Unido que pretendia criminalizar a homossexualidade. A luta dos homossexuais por meio de movimentos como Act Up London, Stonewall e OutRage! explodiram e foram responsáveis por avanços na garantia de seus direitos que só vieram mais de uma década depois.

Tá aqui o porquê
Quando relacionamos uma das maiores empresas de mídia do mundo com o contexto histórico no qual estava inserida é fácil entender porque esses vilões parecem gays. Ao codificar os vilões de seus filmes como queers, a Disney reforçava os estereótipos preconceituosos da época de que a comunidade LQBTQIA+ era perigosa, egoísta e deveria ter um final trágico.
Temos que pensar que muitas crianças se sentiam “diferentes” e se reconheciam nesses personagens, mas é claro que nem toda representatividade é positiva (ninguém quer ser o vilão, né). A cultura hegemônica - a do capitalismo - reafirma os ideais reacionários presentes no imaginário popular e, mais recentemente, se apropria dos discursos das minorias para controlá-los.
A reflexão que eu deixo é: qual a real relação entre a estruturação da sociedade e a sua produção cultural?
Obrigada por ler até o final e, se quiser, deixe a sua opinião e/ou sugestão nos comentários, até mais. sz
Por Pietra Ramos.



Texto incrível!! Só pra constar, Hades, Úrsula e Scar serão sempre os melhores personagens dos seus filmes!!