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O SURGIMENTO DA NETFLIX

  • Foto do escritor: Cecília Amaral
    Cecília Amaral
  • 28 de fev. de 2023
  • 5 min de leitura

Como a plataforma mudou nosso modo de consumir conteúdo


Em 24 de outubro de 2011, um dos maiores e mais importantes jornais britânicos, o The Guardian, publicava, em tradução livre, a seguinte frase em um dos seus artigos da seção de entretenimento: “O serviço de aluguel de vídeos on-line Netflix nos EUA será lançado no Reino Unido e na Irlanda no início de 2012”. Não muito tempo depois, aquela empresa responsável por entregar DVDs pelo correio desde sua fundação em 1997 e disponibilizar alguns filmes on-line em território americano, mudaria a história da televisão para sempre. A era do streaming tinha chegado.

O maior baque na indústria do entretenimento em mais de um século, veio na forma de dois produtores do Media Rights Capital que procuravam canais de TV que estivessem dispostos a financiar o episódio piloto de uma nova série de drama político. Eram duas pessoas tentando vender uma ideia, mas é questionável se algum deles acreditava que ao invés de fecharem contrato com algum canal de TV tradicional, o embrião que se tornaria a premiada House of Cards atraísse os investidores da Netflix, uma empresa consolidada, mas que onze anos atrás não oferecia qualquer risco à dominação da TV a cabo na vida dos telespectadores. Contrariando o bom senso, a Netflix decidiu não só bancar o piloto por alguns milhões de dólares, como encomendou de uma só vez duas temporadas de 13 episódios, colocando na mesa cerca de 100 milhões em um único projeto.

Loucura ou não, foi essa escolha que mudou para sempre o modo como consumimos produções audiovisuais. Se no século XX e início do século XXI as pessoas precisavam estar em determinado lugar e em determinada hora para assistir seus programas favoritos, a Netflix flexionou o modo como o ser humano usa a TV. Agora, tudo poderia ser feito pela internet. Os custos de produzir um DVD e lidar com a logística de distribuição de filmes e séries não existia mais. Olhando pela ótica das séries de TV, a Netflix praticamente criou o termo “maratonar” quando disponibilizou de uma vez a primeira temporada completa de House of Cards em 2013. Você podia assistir quanto quisesse e de onde quisesse. Com o avanço da tecnologia, uma infinidade de filmes e séries podem ser acessados por qualquer aparelho conectado à internet, sejam eles TVs, celulares, tablets ou notebooks.

A mudança no cenário é clara: a Netflix saiu de 24 milhões de assinantes em 2012 para 214 milhões em 2022, estando presente em mais de 190 países e investindo cada vez mais em conteúdo original que não só parece ser capaz de criar sensações que dominam a cultura pop - é só olhar para sucessos como Wandinha, Bridgerton e Stranger Things, por exemplo - como sempre aparece nas grandes premiações do setor de entretenimento. Não só a Netflix, como outros serviços de streaming, são cada vez mais indicados em categorias diversas do Emmy Awards.

O impacto dessas plataformas não só foi sentido no setor televisivo, como também em Hollywood. O cinema não é mais o único lugar em que você precisa ir para acompanhar os lançamentos. Produções originais de qualidade são lançadas anualmente em muitos serviços de streaming. Entretanto, apesar do seu impacto, as plataformas são um tanto esnobadas nas premiações. Falando apenas de filmes, e não documentários, a Netflix só foi ganhar seu primeiro Oscar com Roma, em 2019. Apesar de estar sempre presente nas indicações, a Academia - cujos membros são em sua maioria homens brancos - parece relutante em entregar as estatuetas para produções feitas exclusivamente para os serviços de streaming, muito conhecidos pela diversidade presente em suas produções. Claro, esse é só um dos vários problemas que rodeiam o centro pouco diverso da elite de Hollywood.

Nos últimos anos, a Netflix vem perdendo o monopólio na indústria do streaming conforme outras plataformas ganham espaço. HBO Max, Amazon Prime Video, Disney Plus e Star Plus são apenas alguns em uma longa lista de serviços que se destacam. E apesar de um dia ter sido a favorita do público, o surgimento de opções mais acessíveis faz com que a pioneira da indústria passe por momentos conturbados.

Em 2022, a Netflix perdeu 1,2 milhões de assinaturas nos primeiros seis meses do ano. Foi um ano difícil para a plataforma, que apesar do sucesso estrondoso de várias de suas produções, agora precisa competir com serviços tão bons quanto. Ademais, a empresa começou a sofrer duras críticas pelo modo como parece cancelar subitamente várias séries favoritas dos seus usuários, além de possuir planos de assinatura consideravelmente mais caros do que seus concorrentes e se esforçar para endurecer suas leis que evitam o compartilhamento de senhas. O método da Netflix de lançar muitas vezes uma temporada inteira de alguma série, pode também estar atrelado ao rápido desinteresse dos usuários por esses programas e ao fatídico cancelamento deles. Se antes esse era um trunfo da plataforma, agora os serviços de streaming parecem ver inúmeros benefícios em voltar às raízes da TV tradicional, liberando episódios semanais de várias das suas séries mais famosas.

Quem faz isso há bastante tempo - e faz bem - é a HBO Max. Ao invés de liberar temporadas completas, o canal opta por otimizar a experiência do usuário e gerar mais burburinho nas redes ao disponibilizar episódios semanais. House of the Dragon e a atual The Last of Us, por exemplo, fazem com que a comunidade de fãs das séries comentem sobre elas por meses enquanto estão em exibição. O mesmo não acontece com a Netflix, que ao disponibilizar tudo de uma vez, dá margem para o famoso “maratonar”, e as discussões que poderiam se estender por semanas e desencadear no aumento da popularidade dessas séries, acabam se esgotando em dias, aumentando as chances do programa cair no esquecimento.

Entre erros e acertos, é claro que a Netflix mudou para sempre como e quando consumimos conteúdo. Uma década depois do seu marco histórico com a compra dos direitos de House of Cards, muita coisa mudou. Nós vivemos na era do streaming, mas isso não significa que seja o fim dos canais de TV abertos, ou que o cinema pode se tornar obsoleto. Tecnologias podem até se substituir com o passar do tempo, mas experiências vão ser sempre únicas. Da ida ao cinema com os amigos, ao esperar ansioso a hora certa de assistir algo na televisão e as horas deliciosas maratonando a nova temporada da sua série preferida no sofá de casa. Nossa postura diante da arte (e o audiovisual é sim uma das mais incríveis formas dela) se transforma, mas continua, sem sombra de dúvidas, forte como nunca.



Por Cecília Amaral.




 
 
 

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